A transferência de sentimentos hostis.

Dando continuidade ao artigo QUANDO TRANSFERIMOS AO OUTRO O QUE É NOSSO, quero escrever um pouco mais sobre o fenômeno da transferência dentro do contexto organizacional.

Tomo como base a frase do Luigi Pirandelo (dramaturgo, poeta e romancista siciliano) para iniciar a discussão deste assunto, principalmente porque ela cabe neste cenário e artigo.

É próprio da natureza humana, lamentavelmente, sentir a necessidade de culpar os outros dos nossos desastres e das nossas desventuras.

Faz-se necessário abrir um parênteses em relação a palavra culpar na citação anterior, uma vez que a transferência na psicanálise não tem a ver com o colocar a culpa no outro, mas sim em um processo descrito por Freud como:

reedições, reduções das reações e fantasias que, durante o avanço da análise, costumam despertar-se e tornar-se conscientes, mas com a característica de substituir uma pessoa anterior pela pessoa do médico. (FREUD, 1969. v. 7, p. 109-19)

Sendo este mecanismo essencial para psicanálise, ele está presente em todo o processo terapêutico, desde o momento em que o paciente escolhe entre a psicanálise dentre quaisquer outras práticas até a escolha de um psicanalista em particular, sem conhecê-lo, talvez por causa do nome, sexo, idade, etc.

Porém, como esse processo se dá no contexto organizacional levando em consideração que poucas são as vezes que escolhemos as empresas que iremos trabalhar ou o gestor que teremos para nós mesmos?

Com todos os avanços tecnológicos e de comunicação a cada vez mais podemos ter a liberdade de escolha sobre quais empresas, segmentos e possíveis gestores que gostaríamos de ter como parte da nossa trajetória profissional.

Mesmo não tendo um “nome” ou “uma figura já conhecida”, sempre temos em mente o ideal de empresa, gestor e de equipes de trabalho. Ninguém cria em sua mente ou deseja ter um gestor que o assedia, que falta com respeito ou que seja escrupuloso, bem como, ninguém deseja uma empresa que não honra com os seus pagamentos e benefícios. Pelo contrário, quando questionados sobre qual o perfil dessa organização, desse líder e equipe para se trabalhar, sempre temos características que dão forma e que corporificam esse ideal. Um ótimo exemplo disso, são as famosas pesquisas da GPTW – “Melhores empresas para trabalhar”.

Esse ideal do eu que é criado a partir das nossas experiências na infância, principalmente com a relação bebê-mãe-pai e que é reforçado a partir da experiência com o coletivo, o meio e o outro (processo de amadurecimento), é o modelo ou imagem que temos como um certo lugar onde nos sentiríamos amado (sentimento de pertencimento nas organizações).

É este lugar que por meio da identificação, permitimos moldar o nosso próprio ego com base no aspecto daquele que foi tomado como modelo, ou seja, nos permitimos aos “sacrifícios que a civilização [organização] espera dos indivíduos, a fim de tornar possível a vida comunitária” (FREUD, 1920/1923, p. 16).

Apesar do assunto central ser a transferência, falar desse processo é importante e por isso que insisto em trazê-lo aqui.

Crochík, com base na psicanálise de Freud diz que existem três formas identificar-se.

1 – a identificação com aquele que se quer ter para si;
2 – a identificação com aquele que se quer ser; e 3 – a identificação com uma situação ou uma característica imaginária ou real que outra pessoa apresente. Os dois primeiros tipos de identificação têm papel importante na formação do eu, pois a renúncia ao objeto de desejo (que se quer ter para si) faz com que o eu se modifique, em conformidade com as características daquele objeto, para imaginariamente retê-lo. Já o segundo tipo de identificação associa-se também com a formação do superego, pois tal identificação é feita para se evitar a ameaça que o objeto de identificação representa para o ego; se o indivíduo se comporta de forma similar ao objeto persecutório, julga que não há nada a temer. Nesse segundo tipo, também está presente o amor pela pessoa alvo de identificação, posto que ela pode significar o cuidado e proteção, ou seja, autoconservação […] A permanência do objeto, ao qual se deveria renunciar, como parte constitutiva do ego, gera uma ansiedade constante. Assim, os desejos de ter um objeto e de ser igual ao objeto se relacionam, tal como se pode perceber na descrição do complexo de Édipo. O terceiro tipo de identificação, com alguma característica ou situação – real ou imaginária – similar à daquele com quem se identifica, refere-se, segundo Freud […] à constituição dos grupos.
(2005, p. 18-19)

Esse mesmo processo de identificação também manifesta-se por meio da transferência de conteúdos que são do indivíduo, que estão ligados ao seu psiquismo e que foram criados para ele, mas que espera-se que o outro atenda.

Isso faz com que a transferência não seja imaginária, mas um ato, que traz à realidade conteúdos do inconsciente, onde as emoções são colocadas na figura do “gestor/equipe”, como uma repetição de relações anteriores.

E se estamos nos falamos de repetições, devemos tomar um grande cuidado sobre quais relações estamos repetindo com as nossas equipes, pois se as experiências nelas foram negativas e hostis a tendência é que o indivíduo uma vez transferindo esses sentimentos, se feche para o novo, resistindo o processo de transformação e atribuindo ao outro uma responsabilidade que é sua.

E por que isso acontece?

Por que a transferência negativa reflete o deslocamento de impulsos agressivos (experiências de desprazer) em vez de libidinais (experiência de prazer), fazendo com que os sentimentos hostis ocultem-se por detrás dos afetuosos, tendendo a se revelar mais tarde.

É neste momento que as relações de favorecimento ou desfavorecimento aparecem, o não se ater para o talento e as entregas, mas sim para a afinidade. O “negligenciar” o que no coletivo, cada integrante daquela equipe representa na entrega (resultados) e dinâmica da área (relações).

Portanto, ter consciência dos seus próprios processos inconscientes auxilia no desenvolvimento de uma equipe e por isso, que é aconselhável a todos, principalmente os líderes, o autoconhecimento e a busca por psicoterapia.

Pense nisso!

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