A Ilusão de Classe e a Falta de Pensamento Crítico

A sociedade brasileira atual tornou-se um grande sintoma. Ao observarmos o cenário político, especialmente desde as últimas eleições, nos deparamos com um país submerso em uma polarização ferrenha. É um contexto onde a idolatria muitas vezes cega a razão, permitindo que figuras de poder ajam em detrimento da própria nação para alimentar interesses pessoais. Contudo, a discussão mais urgente e profunda que precisamos ter não é sobre os nomes que ocupam os palanques, mas sim sobre a base que os sustenta: a nossa formação enquanto cidadãos e a nossa completa falta de consciência de classe.

Em sua essência, a consciência de classe é o entendimento claro de qual grupo da sociedade o indivíduo pertence, o que lhe permite identificar quais políticas e discursos defendem os seus reais interesses materiais e de vida. No entanto, o que presenciamos hoje é um fenômeno assustador e paradoxal: minorias sociais, populações de baixa renda e trabalhadores unindo-se a discursos que, na prática, os prejudicam. Quando vemos pessoas que dependem de serviços públicos defendendo cortes de direitos ou celebrando medidas econômicas punitivas, como tarifassos, fica evidente que o problema vai muito além de uma simples escolha ideológica. Há uma inabilidade estrutural de compreender a própria realidade.

Como chegamos a esse nível de distorção? A raiz desse apagão de consciência encontra-se, inevitavelmente, na educação sendo este um grande problema histórico. Conforme dados do relatório Global Gender Gap Report, publicado pelo World Economic Forum (2024), observam-se quedas preocupantes em indicadores educacionais básicos no país: a taxa de alfabetização geral retrocedeu de 95% para cerca de 91,4%, acompanhada de leves reduções no acesso ao ensino primário e superior. Esses números não representam apenas estatísticas em um papel, eles são a métrica exata de como estamos falhando em instrumentalizar a mente dos nossos cidadãos.

Essa precarização na base cria adultos intelectualmente vulneráveis. Uma educação deficiente e conteudista, que não instiga o questionamento, gera cidadãos com uma mentalidade marcada pela completa ausência de senso crítico. Sem as ferramentas necessárias para analisar e julgar se aquilo que vivenciam e ouvem faz sentido lógico, as pessoas perdem a capacidade de decodificar o mundo. A falta de pensamento crítico cria um vazio cognitivo que rapidamente é preenchido por discursos fáceis, narrativas de ódio a um “inimigo comum” e falsas sensações de pertencimento.

É neste ponto que a psicanálise nos oferece uma lente fundamental para entender o comportamento das massas. Freud (1921/2011) já alertava sobre a imensa dificuldade que o ser humano tem de preservar o seu funcionamento intelectual quando bombardeado por fortes influências emocionais, mostrando como a mente do indivíduo em massa perde a capacidade de julgamento autônomo e passa a atuar sob o domínio da atração afetiva e da sugestão. Quando a educação falha em fornecer uma âncora racional e crítica, o sujeito fica à mercê desses impulsos primitivos.

Winnicott (1950/2001) corrobora essa visão ao argumentar que a democracia não é uma condição dada pela natureza, mas uma conquista contínua que “só pode ser proporcionada e mantida por um número suficiente de indivíduos emocionalmente maduros”. Ou seja, quando a sociedade falha em educar e amadurecer seus cidadãos, ela se vê obrigada a “carregar nas costas” uma grande porcentagem de adultos psiquicamente imaturos — indivíduos que, sem consciência crítica, votam e agem contra a própria sobrevivência.

Portanto, o desafio brasileiro transcende a polarização política e não pode ser depositado exclusivamente nos ombros da escola tradicional. A formação do pensamento crítico e o resgate da consciência de classe são responsabilidades de toda a teia social, incluindo, de forma incisiva, a iniciativa privada. O mercado e as corporações têm um papel fundamental como agentes geradores de mudança. A pandemia de Covid-19 nos deixou exemplos claros disso, quando grandes empresas — como o Magazine Luiza em suas campanhas pró-vacina — utilizaram seu imenso alcance não apenas para vender, mas para educar, conscientizar e proteger a população em um momento de crise.

Para que possamos quebrar este ciclo que leva o nosso país a retroceder e favores alguns que se beneficiam da burrice humana, precisamos de um ecossistema que provoque o indivíduo a pensar, a duvidar e a situar-se no mundo, ao invés de lucrar com a sua alienação. Afinal, uma verdadeira mudança estrutural só ocorre quando todos os agentes da sociedade se comprometem em dar ao cidadão a clareza necessária para saber quem é, de onde vem e, principalmente, pelo que deve lutar.

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