O controle nosso de cada dia!

Relendo o texto do Freud em “Para além do princípio de prazer” (1920/1996), me vi pensando sobre a necessidade do controle que o ser humano apresenta no dia-a-dia a partir da perspectiva do Jogo do Fort-da.

No relato, o menino de dezesseis meses brinca com o carretel de modo que ele o atirava sobre a borda de sua cama e este desaparecia junto a emissão do som “o-o-ó” (interpretado por Freud como Fort, correspondente no alemão a “ir embora”) e em seguida, puxava o objeto por meio do cordão e junto ao reaparecimento do carretel emitia um “da” (ressignificado por “ali”, “retorno”).

Este jogo para Freud, segundo Dor (1990), representa claramente como a metáfora paterna possibilita o acesso da criança ao simbólico, ou seja, ao “controle simbólico do objeto perdido” (p. 89).

O que me chama a atenção nele é como a bobina serve a criança para o controle da ausência da mãe, me parecendo que esta necessidade de controle marca a história daquele sujeito.

A criança precisa aprender que aquela onipotência tão imaginada não é tão onipotência assim e que existem fatores externos que a colocam em risco.

Após o nascimento do filho e o fim da licença da maternidade, muitas mulheres precisam retornar a rotina normal de trabalho, desta forma o bebê tem a experiência de perder o objeto que parecia estar dentro do seu controle.

O mais interessante disso tudo é que ele desenvolve formas para lidar com isso. Brincar e escolher um novo objeto para substituir a mãe são bons exemplos.

Entretanto, essa necessidade de lidar com o que esta fora do controle não para por aí. Ao longo da nossa trajetória percebemos que lidar com a ausência da mãe não é o único desafio que temos, pois havemos de lidar com a sociedade, a vida, a natureza, com as doenças, a velhice e até a própria morte.

Buscamos continuamente formas para lidar com aquilo que foge ao nosso controle!

E isso é tão verdade que quando somos acometidos por algo desconhecido, como o que estamos vivendo nos dias atuais, nos angustiamos e direcionamos a nossa energia para a busca de respostas e controle desse objeto que desafia a nossa onipotência.

É como se a criança ao jogar o carretel se visse obrigada a puxá-la de novo, ou pelo menos, ao prender este carretel ao cordão que à liga.

No exemplo citado por Freud fica claro que o brincar e a escolha do objeto se dá por não poder controlar a ausência da mãe e mesmo que inconscientemente, o movimento de lançar o carretel preso a um cordão ligado a ela, talvez tenha o objetivo de sustentar a sua própria onipotência.

O adulo também faz isso!

Quantos são os gestores que centralizam a informação e o poder por puro medo de perder o controle? Existem aqueles que nem deixam seus colaboradores aparecerem repetindo o comportamento da criança, ou seja, lançando-os à borda da cama e trazendo-os de volta quando lhe é conveniente a fim de manter a onipotência.

O controle é uma necessidade da humanidade, mas parece-me que o excesso dele tem mais a ver com o objeto que foi perdido do que a necessidade de tê-lo.

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