Quando não tem nada a ver com o outro

É impressionante como as organizações são campos férteis para as relações transferenciais. Continuamente transferimos ao outro questões que são únicas e exclusivamente nossas, mesmo que sem perceber.

A vida nas organizações é intensa. Somos envolvidos em reuniões, projetos, atividades e entregas em que todos ali estão, ou deveriam estar, com um único objetivo, responder as expectativas do negócio sobre si.

As marcas e empresas passaram a ser organismos vivos tendo personalidade e processos psíquicos que manifestam-se em sua cultura, reverberando em políticas, manuais, missão, visão, valores e processos internos.

É por meio dessa persona que rola a tal identificação, conceito proposto por Freud (1920/1923, p. 46) “como a mais antiga manifestação de uma ligação afetiva a uma outra pessoa”. Desta forma, o laço entre o sujeito e a organização, se dá por um processo psíquico que é traduzido no contexto das culturas organizacionais como a identificação com os valores, a missão, a visão e as crenças da organização, ou seja, com o que ela é.

E se estamos falando das personas como forma de expressão e corporificação da empresa no mercado (branding e employer branding), então o processo de transferência começa aí!

Uma empresa é formada por um ou vários indivíduos. São eles que com as suas crenças, visão de mundo e carga emocional, idealizando o projeto, investem energia e dinheiro criando algo que eles querem que o mercado veja.

Mesmo tentando ser o mais imparcial e profissional possível, as questões que carregam em si são transferidas para a organização, tendo esta carga emocional atribuída, mesmo que inconscientemente.

Como ótimos laboratórios, as empresas familiares evidenciam melhor as questões dos indivíduos que a formaram para o dia-a-dia daquela instituição. Talvez seja por esse motivo que a cada vez mais, estudos sobre a continuidade das empresas familiares vem apontando que boa parte dos negócios quebram na terceira geração após o fundador.

Entretanto, engana-se quem acredita que isso é específico deste tipo de negócio. As S/A’s, LTDA’s, de capital de aberto e demais configurações também são experts neste assunto, principalmente quando analisamos as relações de poder e as formações de equipes.

Disputas de diretorias reverberam em muitas das vezes em equipes que repetem o comportamento sem ao menos perceber o que está acontecendo ou simplesmente pelo puro medo do poder e do controle.

Desta forma, o outro sempre está no podium como culpado de algo ou como responsável por aquilo que não saiu conforme o desejado. A grande questão é que o outro é somente o espelho do que somos e nas relações vemos mais de nós do que de quem interage conosco.

Por essa razão que a efetiva administração de conflitos e a liderança precisa ter como base o autoconhecimento. Quando temos clareza de quem somos e o que queremos, temos parâmetro para projetar menos e contribuir mais em equipe.

Por isso repito e afirmo, não tem nada a ver com o outro, tem a ver com você!

Na terapia mãe, pai, irmãos, amigos, chefes e tantos outros personagens da vida cotidiana aparecem, mas não é o outro e sim, como o paciente age diante dessas relações. Isso não o isenta das responsabilidades atribuídas as falhas e erros cometidos conosco, mas que nos traz a reflexão dos impactos delas em nossas vidas e o quanto nos permitimos e submetemos a tais situações.

Por essa razão, as organizações são terrenos férteis para a transferência e a projeção. Portanto, quanto mais clareza ela tiver da sua persona e do futuro ideal que almeja, melhor contribuirá para o desenvolvimento das pessoas, à começar das contratações de profissionais aderentes a sua cultura.

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