O sussurro da sofisticação: por que o quiet luxury redefine o consumo?

No universo do consumo de luxo, onde a ostentação já foi sinônimo de status e poder, uma nova corrente emerge silenciosa, mas poderosa: o Quiet Luxury. Longe dos logotipos chamativos e das exibições explícitas de riqueza, essa tendência representa uma transformação profunda nos valores e comportamentos dos consumidores, marcando uma era em que a sofisticação se manifesta em discrição, qualidade intrínseca e um propósito mais consciente. Este movimento não é apenas uma estética passageira da moda, mas um reflexo de mudanças sociais e econômicas que impactam desde as passarelas até o design de interiores e o bem-estar pessoal.

Historicamente, o consumo de bens de luxo esteve intrinsecamente ligado à visibilidade e à distinção social. Pensadores como Veblen (1899) argumentavam que itens caros funcionavam como símbolos de status, poder e riqueza, uma ideia reforçada por Goffman (1951) e Bourdieu (1984). A própria palavra “luxo”, do latim, remete ao excesso e ao que está além do necessário, sempre conectada à dinâmica de comparação e competição social. Para Kapferer (2010), a visibilidade era o motor desse consumo, comunicando a hierarquia social através da capacidade dos bens de sinalizar riqueza, poder e exclusividade.

No entanto, as últimas décadas testemunharam uma diluição do luxo tradicional. O fenômeno do masstige (união de massa e prestígio) e o crescimento de falsificações democratizaram a imagem de marcas que antes eram exclusivas da elite, comprometendo sua capacidade de comunicar distinção social. Em resposta, um grupo de consumidores, buscando diferenciar-se dos apegados ao consumo ostentativo, começou a procurar por outros fatores de distinção, como conhecimento, acesso a experiências e produtos hiper personalizados. Essa busca deu origem ao que hoje chamamos de luxo não convencional, imperceptível, silencioso ou sutil.

As Novas Dimensões do Luxo: Experiência, Escassez e Agência

O Quiet Luxury difere das abordagens tradicionais em três dimensões conceituais cruciais: a orientação do luxo, o papel do consumidor e o significado da escassez. Em vez de focar apenas no produto, essa nova visão se concentra no que o luxo faz pelo consumidor e em como ele é experimentado.

Luxo Experiencial: O luxo transcende a mera posse de um item para se tornar uma experiência completa. Isso inclui desde o ambiente multissensorial de uma compra até a cocriação de significado com os produtores. As experiências de luxo são caracterizadas pela transitoriedade, pelo poder flexível, escapista e libertador. Por exemplo, não se trata apenas de comprar vinhos caros, mas de ser recebido pelo proprietário em um château e visitar vinhedos de helicóptero. 

Momentos de luxo podem ser encontrados em práticas como a dança de salsa, que oferece valores estéticos e a sensação de exclusividade pelo talento, ou até mesmo em cuidados hospitalares que promovem a autotransformação e o autodesenvolvimento. Essa perspectiva reforça que o luxo pode ter diversas interpretações, variando conforme o consumidor e o contexto.

Escassez Epistemológica: A raridade no Quiet Luxury não é definida apenas pelo preço alto ou pela oferta limitada, mas pela construção do significado de raridade pelos próprios consumidores. Isso significa que o luxo pode não ser caro e ser acessível a muitos, pois sua raridade reside no que é internalizado pelo consumidor. Exemplos surpreendentes dessa escassez incluem o acesso a recursos essenciais à vida, como água potável e ar de qualidade, que, apesar de serem universais, tornam-se um luxo em contextos de escassez. 

A saúde e a estética corporal, como corpos definidos, também representam um luxo raro, alcançado por meio de dedicação de tempo e investimentos. A hiperpersonalização de produtos de bem-estar baseada em DNA exemplifica uma raridade possível pela tecnologia, onde a exclusividade reside no procedimento preciso de obtenção de informações biológicas.

Consumidor Agente: O consumidor de luxo não é mais um mero receptor, mas um agente ativo na construção do significado do luxo, influenciando onde, como e com que frequência suas vidas são enriquecidas. As gerações mais jovens, como a Geração Y e os Millennials, demonstram um comportamento mais criativo e participativo, buscando cocriar o significado do consumo e priorizando bem-estar e valores pessoais. Isso se estende a contextos de não consumo, como o acompanhamento de exibições de luxo online no Instagram, que despertam sentimentos e significados sem a materialização do produto. 

Até mesmo a filantropia pode se tornar uma experiência de luxo, onde a doação de capital econômico, social e cultural proporciona prazer, propósito e conexão, transformando o doador e o mundo ao seu redor. Essas interpretações são altamente subjetivas, relativas e contextuais.

Implicações de Negócios e o Futuro do Luxo

A ascensão do Quiet Luxury não é apenas uma mudança estética, mas um imperativo estratégico para as marcas. Em um cenário econômico volátil e com consumidores cada vez mais conectados e menos fiéis a uma única marca, o setor de luxo precisa se reinventar. O foco se desloca da simples transação para a construção de relacionamentos de longo prazo e aprimoramento da experiência do cliente.

Marcas como Brunello Cucinelli e Loro Piana já são referências nesse segmento, enfatizando a qualidade, a alfaiataria impecável e a discrição. No entanto, até mesmo grifes tradicionalmente mais chamativas, como Louis Vuitton e Miu Miu, estão adaptando suas coleções para incluir peças mais discretas e atemporais, refletindo um cansaço visual da ostentação e uma economia incerta. 

O desafio para as marcas é calibrar suas ofertas para as “marés” do consumo, especialmente com o crescimento do mercado de luxo pessoal, que Bain & Co. prevê atingir entre US$ 585 e US$ 629 bilhões até o final da década.

Além da moda, o Quiet Luxury ecoa em diversas áreas:

  • Design de Interiores: Prioriza cores neutras, silhuetas clássicas e peças funcionais de alta qualidade, criando uma atmosfera serena e sofisticada que “sussurra” elegância. Valoriza itens do dia a dia, souvenirs de viagem e peças artesanais, misturando o antigo e o novo para criar um ambiente autêntico e vivido.
  • Beleza e Estética: O “quiet beauty” propõe um olhar mais natural, com resultados discretos e personalizados. Questiona os excessos da harmonização facial, focando na regeneração da pele e em ajustes leves que valorizam os traços únicos do indivíduo, promovendo o bem-estar e a manutenção da identidade facial.
  • Construção e Arquitetura: O setor se distancia da ostentação de cristais para valorizar o design, a qualidade dos acabamentos e a sintonia com o ambiente, demonstrando segurança de forma equilibrada.
  • Automóveis e Turismo: Modelos de carros mais discretos de marcas luxuosas ganham destaque, e milionários optam por destinos menos movimentados e hotéis discretos que prezam pela privacidade.

Uma das maiores oportunidades para as marcas de luxo reside na sua capacidade de integrar a sustentabilidade em sua essência. Com a crescente conscientização ambiental, o Quiet Luxury se alinha perfeitamente com a busca por produtos duráveis, de alta qualidade e que minimizam o desperdício, favorecendo o consumo consciente. Marcas que adotarem princípios “verdes” em toda a sua cadeia, do fornecimento à reciclagem, podem não apenas otimizar custos, mas também se posicionar como líderes de opinião e atrair uma nova geração de consumidores e influencers “verdes”.

Em resumo, o Quiet Luxury é mais do que uma tendência, é um código de consumo e um estilo de vida que reflete a busca por autenticidade, individualidade e qualidade duradoura em um mundo cada vez mais saturado. Marcas que souberem sussurrar elegância, inovar em experiências e abraçar a sustentabilidade estarão à frente, redefinindo o que significa ser luxuoso na próxima década.

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SOBRE O AUTOR

Rodrigo Alves é Psicólogo, pós-graduado em Gestão Estratégica de Pessoas com especialização em Mercado e Negócios de Luxo, Rodrigo buscou compreender os significados ocultos do consumo e as relações de poder nas organizações, tendo publicado um artigo que posteriormente virou capítulo de um livro sobre as contribuições da psicanálise para a análise da cultura e relações de poder dentro das organizações.

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