Tudo o que se vê existe e o que se escolhe não ver também!

Recentemente, uma frase em uma exposição me chamou a atenção: Tudo o que se vê existe, e o que se escolhe não ver também. Em apenas 14 palavras, ela capturou um dos movimentos mais complexos do ser humano: nossa capacidade de ignorar o óbvio. Nem sempre por escolha consciente, mas por um mecanismo de proteção, construído para evitar o que dói, o que incomoda, ou o que ameaça o status quo.

Esse movimento, à primeira vista, parece nos poupar. Escolhemos não ver um problema no trabalho, um desalinhamento em um relacionamento ou, talvez, um incômodo persistente sobre quem somos e quem queremos ser. É como colocar um tampão sobre os olhos, acreditando que, se não olharmos, aquilo deixa de existir. Mas a verdade é que essas realidades ignoradas têm um preço — e quase sempre, ele chega na forma de sofrimento acumulado.

Freud, ao estudar a psique humana, explicou que somos guiados pelo princípio do prazer: buscamos o que é confortável e fugimos do que gera desprazer. Isso ajuda a entender por que evitamos enfrentar situações difíceis. Ignorar parece menos doloroso do que confrontar.

Esse comportamento aparece com frequência nos vínculos que construímos. Ficamos presos a relações, empregos ou rotinas que sabemos não ser saudáveis, mas que oferecem uma familiaridade reconfortante.

É aqui que entra o falso self, conceito de Winnicott. Muitas vezes, criamos uma versão de nós mesmos para agradar, pertencer ou atender expectativas. E, em algum momento, essa versão falsa se torna tão presente que sufoca o self verdadeiro — aquele que anseia por mudança, autenticidade e crescimento.

Fechar os olhos para a realidade não elimina o problema, apenas o adia. Relacionamentos tóxicos, escolhas de carreira que não ressoam com nossos valores, ou mesmo questões de saúde mental que evitamos enfrentar acabam nos alcançando. Quanto mais negamos, mais difícil é lidar quando a verdade finalmente se impõe.

É como insistir em uma relação esperando que a outra pessoa mude, mesmo sabendo, lá no fundo, que isso não vai acontecer. Ou permanecer em um emprego porque ele é “estável”, enquanto o peso da insatisfação consome sua energia todos os dias. Essas decisões têm um custo emocional, mental e, muitas vezes, físico.

Mas o que acontece quando nos permitimos ver? Não apenas olhar de relance, mas realmente encarar as verdades que evitamos? É aí que o amadurecimento começa.

Reconhecer o que está errado é o primeiro passo para mudar. É aceitar que, muitas vezes, o sofrimento maior vem justamente da resistência à mudança, e não da mudança em si. Quando olhamos para a verdade com coragem, ganhamos a chance de aprender, crescer e nos libertar de padrões que nos limitam.

Enxergar não é fácil, mas é libertador!

A frase daquela exposição me fez pensar: o que eu tenho escolhido não ver? Quais realidades estou evitando enfrentar? São perguntas desconfortáveis, mas necessárias.

E você? Que verdades estão escondidas atrás dos tampões que colocamos sobre os olhos? Talvez seja hora de enxergar. Afinal, o que escolhemos não ver também existe — e, às vezes, é exatamente isso que precisamos enfrentar para avançar.

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SOBRE O AUTOR

Rodrigo Alves é Psicólogo, pós-graduado em Gestão Estratégica de Pessoas com especialização em Mercado e Negócios de Luxo, Rodrigo buscou compreender os significados ocultos do consumo e as relações de poder nas organizações, tendo publicado um artigo que posteriormente virou capítulo de um livro sobre as contribuições da psicanálise para a análise da cultura e relações de poder dentro das organizações.

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