Em ano de eleição há quem traga a família tradicional para o discurso político e quem acredite que ela é a solução para um país corrupto, de aparências e que pouco olha para as minorias.
Se olharmos atentamente a história do Brasil veremos que por muitos anos fomos governados por famílias tradicionais, feitas a imagem da perfeição e impecáveis em um discurso que se tornava ideal social e desejo para quem gostaria de ascender e ser feliz.
Entretanto, o que aparecia era a vida linda, o casal alegre, os filhos em perfeita harmonia, a esposa recatada e apaixonada pelo seu marido… ou seja, a família perfeita. Porém, em quatro paredes ou dentro dos seus próprios clãs eram os interesses, infortúnios, discussões, divisões, preconceitos, desejos sórdidos e tantos outros problemas que ganhavam a cena, mas que eram mantidos em segredos para que não ficasse evidente que tais famílias eram meros mortais ou piores que os demais seres humanos.
A entrada da mulher no mercado de trabalho, a emancipação financeira daquelas que durante décadas foram tão dependentes do “chefe da família”, as evoluções históricas quanto o papel dela na sociedade, o enfraquecimento do patriarcado e a libertação da sexualidade não só tiraram homens e mulheres do armário, mas fizeram com que toda a sociedade saísse de lá, se abrisse ao um novo mundo e reconhecesse as suas debilidades, concordando ela ou não.
Segundo a demógrafa Elza Berquó, na segunda metade do século XX a família “hierárquica”, organizada em torno do poder patriarcal, começou a ceder lugar a um modelo de família onde o poder é distribuído de forma mais igualitária: entre o homem e a mulher, mas também, aos poucos, entre pais e filhos.
Isso não significa que a sociedade atual não tenha problemas ou o quê avançar, mas que o fato de termos nos libertado do conceito patriarcal, de podermos decidir as nossas próprias escolhas e aprender com elas, tornaram a sociedade mais adulta e menos suscetível a padrões direcionados pela burguesia como eram antigamente.
Mercados inteiros tiveram que mudar por conta disso. Os segmentos de Moda e Beleza nunca mais foram os mesmos. Desfiles com a cara da burguesia, pessoas brancas, belezas esculturais e campanhas com famílias da realeza tiveram que ser atualizadas para um cenário real, atual e aceitável pela grande “massa”.
O pai passou a não mandar mais como era antigamente, meninas e meninos passaram a escolher por si só com quem vão viver parte da sua vida, afinal nada mais tem que ser para sempre e a mulher se libertou do seu “dever” de manter a virgindade e começou a questionar os papéis que foram atribuídos a ela ao longo da história.
A valorização do papel do pai e da mãe saíram da figura de medo para a de respeito. Não é mais o título que importa, o que importa é o carinho, o que você dá para os filhos, como cria, como participa da formação, como educa e como se torna exemplo.
Sexo só para a procriação? Não, sexo também é para a diversão!
Com isto, o número de divórcios vem aumentando expressivamente assim como aumenta a idade em que os jovens decidem se casar, bem como a configuração desses relacionamentos.
Contudo, as perguntas que não se calam quando escuto tais argumentos de políticos e pessoas que baseiam os discursos nisso são: será que essas pessoas sabem o que significa historicamente a família tradicional? o que estamos lamentando que tenha se perdido ou transformado com o decorrer das novas configurações familiares e as mudanças culturais que tivemos? Será que a sociedade seria menos doente, com menos problemas e economicamente muito mais evoluída se ainda à mantivéssemos organizada nos moldes das grandes famílias tradicionais ditadas pela burguesia? Será que temos saudades da família organizada em torno do patriarcado, com sua contrapartida de filhos ilegítimos abandonados na senzala ou na colônia, a esposa oficial calada e suspirosa, os filhos obedientes e temerosos do pai?
Vale ressaltar que a família burguesa no Brasil, de acordo com a escritora Maria Ângela D’Incao, desenvolveu-se no século XIX na esteira da necessidade de “civilizar”, ou seja, nasceu para fortalecer um núcleo de resistência contra as condições históricas formadoras da sociedade brasileira. Naquele período, o desenvolvimento das cidades e da vida burguesa influiu também na arquitetura das residências, procurando tornar o convívio familiar mais íntimo, mais aconchegante, o que significa: mais separado do tumulto das ruas e do burburinho da gente do povo.
Volto a dizer, o cenário atual não é o perfeito, até porque nada na vida é e também precisa ser. Entretanto, a queda da família tradicional tal qual é marcada a nossa história trouxe muitos avanços para a sociedade, dentre eles:
- A libertação da mulher dos papéis sociais dos quais ela não tinha direito de escolher como se casar, praticar o sexo para diversão ou procriação, assumir uma postura do lar etc;
- A libertação sexual da sociedade;
- A queda de preconceitos a respeito das novas configurações familiares que não eram vistas positivamente como casais do mesmo sexo e aquelas que não se dão por escolha do próprio indivíduo como falecimentos, gravidez na adolescência, imaturidade de homens que ainda fogem de assumir a responsabilidade da paternidade etc;
- E a reconfiguração da família formada por com casais héteros que podem questionar se vão ou não ter filhos, quando vão e como irão lidar com os seus relacionamentos.
É bem claro e óbvio que as condições da sociedade contemporânea não permitem mais que se sustente a família tradicional a não ser à custa de grandes renúncias e, provavelmente, grande infelicidade para todos os seus membros.
Partindo disso, por que é que se insiste em defender tal argumento? Por que é que a sociedade bate palma e vota para quem diz que irá defender a família tradicional? Que família é essa? A que a mulher fica em casa cuidando dos filhos enquanto o marido se diverte em “cabarés” como era antigamente? Ou melhor, enquanto os maridos permanecem em aplicativos de relacionamentos como solteiros? Ou aquelas em que ambos se suportam por que casaram para sempre e que talvez são até marcadas por violências? Por que desejar o retrocesso?
São os mesmos que defendem essa ideologia que estão envolvidos em escândalos de corrupção, traições, orgias, manifestações de preconceitos, drogas e tantas outras mazelas das quais as “famílias tradicionais” abominam. Não se enganem, o caso do deputado conservador Madison Cawthorn dos EUA é reflexo de algo que não só acontece lá, mas em todo o mundo.
O teto do Brasil também é de vidro!
Por isso, nessa eleição não construa a sua opinião e voto em cima de quem defende assuntos isolados e brinca com a capacidade do ser humano de pensar. Use o seu senso crítico, porque você também é responsável pela sociedade que vem sendo construída para nós, nossos filhos (para quem desejar ter) e para as pessoas que amamos.

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