Por que preciso ser assim?

Culturalmente o perfeccionismo é muitas vezes visto com algo positivo e quando este é atrelado a um possível defeito, pouco se tem sobre a dimensão do assunto.

Quem nunca em um processo seletivo, de uma forma leiga, disse que seu maior defeito era ser perfeccionista sem saber efetivamente o que isto significa?  Acredito que boa parte das pessoas devem ter, ao menos, passado uma vez por essa experiência.

Com base em estudos dos pesquisadores Thomas Curran e Andrew Hill, das universidades de York SC John e Both no Reino Unido, os números de perfeccionistas nos anos de 1989 a 2016 vem aumentando significativamente entre recém-formados nos EUA, Reino Unido e no Canadá.

As hipóteses para este aumento dos casos são inúmeras, porém, nos parece que mesmo com todas as mudanças no mundo, principalmente as culturais, estamos a cada vez mais precisando internalizar e lidar com os novos padrões e formas de existir dos dias atuais.

Somos tão bombardeados por estímulos que querem a todos os momentos nos convencer de que o nosso desejo é desejar aquele modelo de vida, que as vezes temos dificuldades para reconhecer o que de fato queremos.

As crianças já nascem rodeadas de tantos estímulos que ao longo do seu desenvolvimento, o que vem de forma, precisa sobrepor o que está dentro, até porque nos parece que aquilo que está fora é mais legal.

Aumentamos em números de influencers infantis, de “referências” em moda, em beleza e comportamento. Nos identificamos com eles(as) por ser GENTE COMO A GENTE e não queremos mais a vida dele, QUEREMOS SER ELES(AS).

E por que? Porque ele(a) é legal, porque ele(a) fala o que pensa e nos parece tão verdadeiro nas redes sociais. Ele(a) faz o que quer, vive uma vida livre, é patrocinado(a) para realizar o seu próprio desejo. E dá pra ser melhor?

Katie Rasmussen, pesquisadora da Universidade de West Virginia, nos EUA diz que “duas em cada cinco crianças e adolescentes são perfeccionistas”.

Isso não significa que o crescimento do perfeccionismo quer dizer que as novas gerações não estão se tornando mais bem-sucedidas, mas que estamos ficando mais doentes, tristes e até mesmo minando o nosso potencial.

Até porque o perfeccionismo é, de forma geral, um modo autodestrutivo de viver e em grande parte está associado a uma série de condições clínicas como depressão e ansiedade, automutilação, transtorno de ansiedade social e agorafobia, suicídio e tantos outros.

Sarah Egan pesquisadora da Universidade Curtin, em Perth, na Austrália, especializada em perfeccionismo, distúrbios alimentares e ansiedade, diz que “há estudos que sugerem que quanto mais perfeccionista, mais transtornos psicológicos você vai sofrer”.

É claro que ter aquela exigência básica quanto às entregas, aos padrões pessoais e as relações é fundamental para a vida. E é por isso que os especialistas vão dizer que existem dois tipos de perfeccionistas: o chamado de adaptativo ou “saudável” (caracterizado pelo alto padrão, motivação e disciplina) e o mal-adaptativo ou “nocivo” (quando o seu melhor nunca parece bom o bastante e não atingir metas te deixa frustrado).

Ser criterioso, emprenhar-se na sua carreira, comprometer-se com os resultados e assim por diante, são todas características desejáveis para a vida e para as organizações. Entretanto, o perfeccionismo tem haver com adotar padrões altos e irreais não se permitindo errar ou não corresponder ao ideal estabelecido.

E enquanto pesquisas mostram que aspectos da forma “nociva” – como se martirizar por erros ou sentir que está abaixo da expectativa dos pais – tornam o indivíduo mais vulnerável à depressão, outros estudos sugerem que os atributos do perfeccionismo “saudável” – como o empenho para realizar algo – não reproduzem o mesmo efeito e podem, inclusive, te proteger.

São vastos os estudos sobre o tema, bem como a preocupação e a correlação deste assunto com transtornos mentais já existentes como depressão, ansiedade e etc. Um exemplo claro sobre isso é a própria construção da Escala Multidimensional de Perfeccionismo (EMP) desenvolvida por Hewitt e Flett (1991) que tem como base o modelo teórico que considera três dimensões de perfeccionismo: o auto-orientado; o orientado para os outros; e o socialmente prescrito.

Para os autores existe uma grande e fundamental diferença entre cada um destes componentes que não reside no fato de ser perfeccionista, mas no objeto para o qual é dirigido (auto-orientado x orientado para outros) ou a quem é atribuído (socialmente prescrito).

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