Quando o céu não é mais um limite

Quem já ouviu ou usou o ditado popular “o céu é o limite” ao se referir a busca por um sonho, talvez se identifique com o que vou discutir neste artigo.

Ao longo da nossa trajetória sonhamos com tantas coisas e parece que a vida logo se encarrega de nos mostrar que nem tudo que desejamos é capaz de realizar. É como se nos dissesse que vivemos em uma realidade com poderes diminuídos e que precisamos “adquirir sabedoria e a habilidade para conseguir o que se deseja, dentro dos limites impostos pela realidade”. (VIORST; 2005)

Entretanto, somos serem pulsantes de desejo e em grande parte do nosso tempo estamos sempre em busca de algo que não sabemos exatamente o que é. Desta forma, ter limites parece que nunca foi o nosso forte e quebrar paradigmas é o nosso grande tesão.

Porém, para a sobrevivência da humanidade construímos histórias e constituímos nelas civilizações com normas, padrões, conceitos e ideais que nos servem para controlar o desejo e permitir que as pessoas vivam bem em sociedade.

A partir disso, aprendemos a realizá-lo parcialmente (sublimação) por meio daquilo que é socialmente aceito deixando para quem vem depois, o desafio de internalizar em seu psiquismo os padrões sociais impostos pela necessidade de uma sociedade perfeita e sustentável.

A boa notícia diante deste cenário é que parece que o ser humano passou a entender que ser perfeito não é uma condição aceitável para a saúde mental. Padrões religiosos, de beleza, estética e de moda foram os primeiros a sentirem o impacto dessa mudança e a voz do povo, parece que se tornou a voz de Deus.

O conceito de perfeição se tornou relativo e cabe ao indivíduo decidir o que é ser perfeito em sua singularidade. O desejo passa a ter uma forma mais livre de expressão e demonstrando um grande avanço.

E já que falamos de singularidade, não podemos nos esquecer do tão famoso ideal do eu.

Essa imagem que foi criada a partir da nossa construção como indivíduo e que tem tudo a ver com as nossas primeiras relações, nos submetem às aspirações dos outros sobre o que devemos ser e ter. E uma vez não atendendo a esses padrões, somos facilmente acometidos de sentimento de vergonha, quando não conseguimos corresponder às expectativas dos outros, que passam a ser também as nossas (ZIMERMAN, 2001).

Apesar da desconstrução iminente dos padrões sociais, os pessoais parecem que ainda estão fortes e arrisco-me até em dizer, que estão mais fortes!

A carreira perfeita, a boa formação, os diversos títulos acadêmicos e aquela remuneração capaz de saciar todos os desejos (“comprar a felicidade”) parecem que são pautas perfeitas da vida ideal.

Frustrar-se não é possível. Ter um tempo para sumir, respirar e amar não são prioridades. E o pouco tempo que nos resta, inventamos algo para nos satisfazer parcialmente.

Com nova forma, a perfeição ganha um novo canal e emissora e nós estamos ali, nutrindo esse monstrinho.

A grande vantagem de tudo isso é que parece que o nosso psiquismo veio preparado para lidar com essas coisas e quem nos criou já sabia que a vida não seria fácil. Porém, ainda assim, ser perfeito tem um custo enorme e para quem acha que ser perfeccionista é só se ater a detalhes, esta muito enganado. Bournout, estresse, ansiedade e tantos outros transtornos provam isso!

Ser perfeccionista é acreditar, mesmo que inconscientemente, que o céu não é um limite. É não ter tempo para se frustrar e nem para coisas que não são essenciais. É se entregar e exigir a cada vez mais boas entregas.

É ser perfeito nos relacionamentos e muitas das vezes querer que o outro também seja. É rejeitar não ser capaz de corresponder as expectativas e confiança dos outros.

É ser muito e não aceitar ser pouco!

E as organizações, além das relações com os pais, são boas fábricas de perfeccionistas.

A busca pelo resultado a todo custo esgota muito o indivíduo e esse é um dos motivos dos quais as novas gerações vem exigindo mudanças nas relações de trabalho. Melhores empresas, melhores gestores, melhores equipes, melhores e melhores… E o jogo que era top-down, agora é bottom-up (ideal de baixo pra cima).

E cá estamos nós, psicólogos organizacionais e profissionais de RH, diante deste novo cenário pensando em práticas para atrair, reter, desenvolver e permitir o indivíduo ser ele mesmo diante dos resultados que precisa entregar para a organização, sem adoecer. Um baita desafio né?

Ah e se você é como eu perfeccionista, uma boa pausa para um café e um ótimo investimento em sua saúde mental (psicoterapia) podem te ajudar a lidar com as inúmeras mudanças que teremos pela frente.

Pense nisso!

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