Um novo desafio para o RH: o adoecimento psíquico nas organizações.

Dentro de uma empresa, muitos são os fatores que influenciam o comportamento humano, sejam inibindo ou estimulando, e cabe ao psicólogo organizacional, buscar compreender e trabalhar as relações entre empregado e empregador.

É geralmente na atuação prática que o profissional atuante no universo das organizações, começa a perceber componentes da cultura e da estrutura da organização, partindo da interação e da observação do comportamento organizacional.

Com base em um estudo realizado em uma empresa pública de abastecimento e saneamento no DF, os pesquisadores buscaram correlacionar os valores percebidos pelos colaboradores e a relação prazer-sofrimento utilizando-se do Inventário de Valores Organizacionais (IVO), com escala de 7 pontos e 66 itens, validados por Tamayo, Mendes e Paz (2000) e da Escala Prazer-sofrimento no Trabalho (EPST), de 5 pontos com 37 itens, validada por Mendes (1999).

Ao final da pesquisa, concluiu-se que o prazer-sofrimento está correlacionado a forma como os valores da empresa são percebidos pelos seus colaboradores. Isso nos faz perceber que dentro de uma organização o psiquismo está tão presente quanto de forma individualizada no ser humano.

O inconsciente dentro da organização pode ser entendido como aquilo que impulsiona a empresa (os seus desejos – visão), que direciona o comportamento (missão), as relações com clientes, fornecedores e colaboradores (valores). Partindo deste pressuposto, as empresas também são dotadas de individualidades que as diferenciam umas das outras, tornando a sua identidade pela qual os seus colaboradores e clientes irão identificar-se.

Costa (2003, p.62) apontará “a identidade da empresa é seu DNA, sendo este motivo o que a torna única, diferente e irrepetível”. Sendo a identidade a que diferencia das demais no mercado, é a cultura organizacional que corporifica essa identidade.

Conhecido como determinismo psíquico, Freud (1997) elaborará uma teoria em que acredita-se que a mente funciona como uma máquina e que cada fase se encadeia à anterior e à posterior, ou seja, os eventos mentais são precedidos de eventos anteriores que os determinam. Isso também é muito presente nas organizações!

Os aspectos conscientes são aqueles percebidos pelos colaboradores, aquilo que está latente, visível e compreendido na organização. Esses aspectos geralmente são apresentados em uma integração, manual do colaborador ou código de conduta, mas vale ressaltar, que mesmo sendo conhecido por todos, os fenômenos são percebidos por cada colaborador de forma diferente e a partir da sua própria estrutura psíquica. Talvez seja por isso que vemos as regras e as suas devidas exceções dentro de uma empresa.

Dejours (1992) em seu livro fala sobre os mecanismos de defesa dos grupos nas organizações a fim de lidarem com questões da estrutura e da cultura organizacional. Muitas vezes o ambiente pouco estimulante, os inúmeros reforços negativos ou atividades repetitivas requerem dos seus profissionais muito mais do que sua própria estrutura psíquica, daí as relações entre eles se fortalecem a fim de um contribuir com o outro e evitar o adoecimento.

Portanto, observar a forma como uma empresa se estrutura, revela muito mais sobre ela do que imaginamos.

Enquanto adoecimento psíquico, Dejours (1992) ressalta a concepção e a importância da organização do trabalho frente a isso, para ele “a divisão do trabalho, o conteúdo da tarefa (na medida em que ela deriva), o sistema hierárquico, as modalidades de comando, as relações de poder, as questões de responsabilidades e etc” caracteriza essa organização (DEJOURS, 1992).

Trazendo para os dias atuais e adaptando-a ao mundo corporativo, a gestão estratégica dos cargos, a distribuição dos papéis e a clareza das atribuições para os seus colaboradores oferecem os caminhos necessários para o progresso dentro da empresa, fixando critérios que possibilitem a organização a agir de forma mais racional, profissional e impessoal.

Essa divisão de papéis é essencial para o bom funcionamento de uma companhia, porém mantê-la saudável é um desafio árduo para psicólogos no âmbito organizacional. Pois, a má distribuição dos papéis dá ao cargo o devido poder para a gestão das equipes e este poder manifesta-se de diversas formas, mas principalmente na relação tríade entre empresa-líder-liderado.

Para Weber (1991, p.16) um dos maiores especialistas no assunto, o poder é visto como “toda probabilidade de impor a vontade numa relação social, mesmo contra resistências, seja qual for o fundamento dessa probabilidade”. Já para Foucault (1977, 1979, 1980, 1995), o poder é concebido não como um estado mental, mas como um conjunto de práticas sociais e discursos construídos ao longo da história que disciplinam o corpo e a mente de indivíduos e grupos.

Retomemos a discussão do funcionamento de uma organização considerando o exemplo do ser humano. Além de aspectos biológicos e genéticos, o ser humano, dentro de uma estrutura psicanalítica, é formado pelo consciente e inconsciente, pelo id, ego e superego. Ou seja, muitos dos comportamentos ou aspectos de sua vida estão ligados a fatores psíquicos armazenados no inconsciente e sublimados no dia-a-dia.

Se em um indivíduo existem inúmeras formas de defesa oriundas de conflitos intrapsíquicos, imagine dentro de uma empresa. Os inúmeros confrontos, por exemplo, com normas, a cobrança pelo dever, a responsabilidade, a relação de poder na estrutura da empresa e etc, geram diversos desafios para serem administrados e superados pelos colaboradores provocando muitas das vezes um ambiente de angústia e desencadeando uma série de mecanismos de defesas, sejam eles coletivos ou individuais.

É nessa hora que a preocupação com o bem-estar psicológico do colaborador e atuação de um profissional especializado se faz importante para que a empresa, dentro da sua estrutura, possa enxergar os fatores organizacionais que desencadeiam o medo, a angústia e a frustração nos funcionários e trabalhe, seja por meio de psicoterapia breve com colaboradores e gestores ou por ações voltadas para grupos específicos, essas questões.

No que se refere à saúde mental de uma empresa e dos seus respectivos colaboradores, ainda existem um grande campo de atuação, mas vale ressaltar que a afetividade, as relações de poder e a cultura da empresa são fatores desencadeadores do adoecimento psíquico.

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